Santinhos: Tradição cultural ou poluição de vias públicas?
- Intercomunicação

- 20 de nov. de 2018
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Desinteresse pelas eleições e falta de acesso aos recursos midiáticos marcam sujeira nas ruas
Por: Isabelle Marie e Vitor Correia

Imagem ilustrativa
O sinal fecha e tem santinho sendo entregue de carro em carro. Nas esquinas das ruas há distribuidores prontos para encher quem passa de panfletos e apresentar seu requerente, ou somente para ganhar seus trocados. O trabalhador sai do serviço e na porta do estabelecimento já é surpreendido com papéis e números que começam em dezenas e por ai vai. “Junto com você”, “Amigo de todos”, “Conto com seu apoio”, “Chegou a hora de mudar” são frases muito comuns no período eleitoral, registradas em uma multidão de papéis que muitos descartam.
Os famosos santinhos políticos são tradição no Brasil desde muitos anos. Antes, a estratégia era utilizada como meio de forçar o eleitor (analfabeto) a votar no nome do candidato que estava inserido na colinha, pois seria mais fácil já que só era preciso depositar o papel nas urnas.
Hoje, na teoria, não existe mais o voto de cabresto porque o voto passou a ser direito de todo e qualquer cidadão, ou seja, incluíram-se as mulheres e os analfabetos também. Porém, algumas práticas realizadas pelos candidatos nos dias de hoje mostram que esse tipo de coerção ainda perpetua entre os brasileiros.
A realidade da política brasileira tem desmotivado cada vez mais os eleitores a participarem da escolha dos seus governantes. Tal descontentamento tem trazido alguns reflexos, como a poluição das vias públicas por conta dos panfletos e folders que são distribuídos agora no período eleitoral. Em Divinópolis, as ruas e as lixeiras do centro da cidade se encontram cheias de santinhos com os rostos dos políticos estampados.
Os santinhos tomam o espaço das ruas. É sujeira aqui, é sujeira ali, tem bueiro sendo entupido e gari enfurecido. Com tantos meios tecnológicos de divulgação, a panfletagem ainda se faz muito presente. Isto ocorre principalmente em regiões mais afastadas, onde a população não desfruta do mesmo acesso às redes de comunicação, ou seja, são mais vulneráveis a acreditar somente na realidade posta de um certo candidato sem poder analisar as opções.
O aspirante a deputado estadual de Minas Gerais Cleitinho Azevedo, acredita que futuramente, com as redes sociais, não precisará mais desse tipo de divulgação da campanha, mas que o santinho ainda é necessário visto que o acesso às mídias ainda é restrito para uma certa parte da população. “Acredito que com o passar dos anos, a gente vai diminuir bastante o santinho, capaz que não vai nem precisar usar e quem agradece é o meio ambiente” ressalta.
Já Eduardo Print Junior, que concorre para o mesmo cargo, na tentativa de diminuir a desordem e a poluição, desenvolveu o projeto de lei CM Nº 021/2017, que prevê uma maior regulamentação quanto à responsabilidade dos candidatos para com suas campanhas políticas em Divinópolis. "A distribuição dos folhetos, panfletos, folhas volantes e similares, seja ela de pessoa física ou jurídica, passa a ser regida com a disposição da lei. Para efeito da mesma, exige-se que o requerente coloque no número de inscrição o CNPJ e o CNPJ da gráfica e quantidade de jornais ou panfletos que serão produzidos" informa Print. Além disso, é necessário também que seja comunicado à prefeitura o local em que serão panfletados, o horário e a empresa que ficará responsável pela divulgação.
Sem deixar de fazer suas considerações referentes à campanha política, Eduardo Print diz que além do material ser caro, grande parte é jogado fora. “As pessoas não guardam, você faz ai em média 50 à 80.000 santinhos, pra você no final ter um total de 10, 15 ou 20.000 votos. Então praticamente se desperdiça quase que 3 vezes mais que o número de votos que você conseguiu.” Segundo ele, muitas pessoas ainda estão desinformadas sobre o que acontece na sua cidade e não sabem em quem confiar. O candidato justifica o uso dos santinhos e sua “importância”: “A aposta dos santinhos e o próprio jornal ainda são bem marcantes, enquanto as pessoas não passarem a utilizar as redes sociais como ferramentas do bem, é difícil você proibir de fazer esse papel gráfico como o santinho, colinha, e outros, porque é o único meio que você tem certeza que vai ajudar o candidato” finaliza.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas últimas eleições no ano de 2016, votos nulos e brancos e pessoas que não compareceram às urnas somam cerca de 10,7 milhões, podendo caracterizar claramente a insatisfação dos eleitores com seus representantes. Em 2018, ano de campanha eleitoral, pesquisas mostram que 6 em cada 10 eleitores estão indecisos ou não querem votar.




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