top of page

Texto

(s)

Outros jeitos de usar a orelha

  • Foto do escritor: Intercomunicação
    Intercomunicação
  • 7 de nov. de 2018
  • 5 min de leitura

Auriculoterapia oferece boas perspectivas para potencializar a implementação das Práticas Integrativas e Complementares do SUS em Divinópolis


Por: Geisa Borges e Paulo Vitor

“Eu sempre tive essa dor nas costas”, relata Regina Aparecida, uma das pacientes atendidas pela Estratégia Saúde da Família (ESF) Nilda Barros, localizada no Bairro Quintino, em Divinópolis. Ela conta que a dor se iniciou na adolescência e foi se agravando no decorrer da vida, com a atividade profissional desenvolvida em fábrica e também com os cuidados com a mãe. “Minha mãe amputou as duas pernas, fazia hemodiálise e eu tinha que carregá-la no ‘muque’ mesmo”. Ela tem hérnia de disco e conheceu a acupuntura em um dia em que passou muito mal: “Começou até a me dar tremedeira no corpo todo. E as lágrimas desciam. Aí o doutor Flávio começou a aplicar as agulhas”.


Regina faz esse tratamento há aproximadamente dois anos. No último ano, houve adição da auriculoterapia que, segundo ela, potencializou os efeitos da prática anterior, além de somar melhorias relativas a problemas como ansiedade, depressão e estresse. “É o que está me dando uma estabilidade. Porque, se não fosse isso, não sei o que seria de mim”, dá o veredito, esclarecendo que a dor não foi eliminada, mas que o tratamento contribui muito para a sua qualidade de vida e redução na administração de medicamentos considerados fortes. “Até morfina eu tomei”, diz sobre o período anterior aos recursos terapêuticos utilizados atualmente, complementando que hoje em dia só faz uso de medicamento a base de codeína, e mesmo assim muito raramente.


A utilização de medicação potente é uma realidade vivenciada por Jaqueline Enes Ribeiro. Ela sofre de enxaqueca e relata que os fármacos prescritos, além de não solucionarem o problema, trazem efeitos colaterais expressivos: “Deixa a gente muito abatida, a rotina de vida muda muito”. Confidencia que nem ela nem os médicos que já procurou sabem o que fazer, pois já testaram vários medicamentos sem sucesso. “Até morfina eu já estou tomando. Estou num estágio que se pode dizer ‘em pânico’”. Jaqueline estava aguardando com boas expectativas a sua primeira sessão de auriculoterapia, sugestão de um dos profissionais com quem se consultou, durante essa jornada em busca da resolução de um problema que tanto impacta o desempenho pleno de sua vida.


Já Cláudia Lúcia Marques de Ferreira Guedes está na sua segunda sessão da terapia. Ela relata não ter percebido diferença em seu quadro, embora admita a possibilidade de ter havido alguma melhora no âmbito psicológico, sem que ela tenha notado com clareza. “Dizem que melhora a ansiedade, e eu sou muito ansiosa”, afirma, declarando-se esperançosa quanto ao procedimento.


A fala da paciente Taís Araújo Moura revela que esse tipo de tratamento pode vir a contribuir para uma maior consciência corporal. “Calma, tranqüilidade... Cada ponto que se pega, você vê [a melhora relacionada]”. Ela pesquisa por iniciativa própria a correspondência entre as queixas e os pontos na orelha. Melhoras no que diz respeito ao comportamento, dores de cabeça, além de promoção da tranquilidade, são benefícios citados, dando destaque ao fato de ser um tratamento natural.


Essas quatro mulheres são algumas das pacientes do doutor Flávio Antônio Marcelino Alves, especialista em Acupuntura – recurso terapêutico da Medicina Tradicional Chinesa que estimula pontos espalhados ao longo do corpo por meio de inserção de finas agulhas.

No segundo período do curso de Medicina, uma palestra sobre medicina antroposófica trouxe a tona interesses relacionados ao cuidado integral do indivíduo, os quais já compunham a bagagem de vida de Flávio. Ele frequentava a clínica do médico palestrante, além de participar de grupos de estudos na área. Quando terminou sua graduação em 1990, tinha o desejo de se especializar em Acupuntura. Entretanto, cursos dessa natureza eram escassos, e ele só concretizou seu objetivo dez anos depois.


Na percepção de Flávio, a cobertura dessa terapia pelos planos de saúde favoreceu sua disseminação. Essas instituições entenderam que acolher essa prática poderia representar economia, devido ao potencial de substituir a “via sacra” por diversos especialistas e exames, já que a acupuntura proporciona uma melhora no estado geral do paciente.


Desde que começou sua atuação no ESF Nilda Barros, há dez anos, o médico aplica o recurso terapêutico tanto em sessões agendadas como durante o atendimento normal, sobretudo para tratamento das queixas de dor. E desde o ano passado, passou a incluir também a auriculoterapia – recurso terapêutico que se dá através da estimulação de pontos específicos da orelha. Ele cursou a Formação em Auriculoterapia para profissionais de saúde da atenção básica, promovida pela Universidade Federal de Santa Catarina.


Flávio esclarece que para diversos casos, ambas as práticas têm efeitos similares e se surpreendeu com a possibilidade de estender o tratamento a mais pessoas, tendo em vista a praticidade oferecida pela auriculoterapia. “Com essa técnica, consigo atender trinta pacientes no mesmo tempo que atenderia apenas cinco, realizando acupuntura”.


Embora não haja acompanhamento documentado sobre a implementação das Práticas Integrativas e Complementares (PICs), garante que o retorno é positivo: “O que me chamou atenção aqui foi realmente o resultado.” Mas complementa que os louros devem ser divididos com o encontro denominado “Grupo de Educação para a Saúde”, que acontece toda segunda-feira, às 13:30, na sala ao fundo do pátio da igreja São Tiago Menor. Trata-se de um momento de discussão temática desenvolvida por Flávio, mas que também se estabelece muitas vezes como uma terapia em grupo, já que os participantes são estimulados a se abrir e expor suas angústias. Além disso, práticas de relaxamento, concentração e consciência corporal também são realizadas. O público que mais adere às práticas são mulheres entre trinta e cinquenta anos. Ansiedade, transtornos psicossomáticos, síndrome do climatério, cefaleia, insônia, dor crônica, são as principais queixas revertidas.


A educação para a saúde é uma diretriz governamental, bem como a implementação das PICs, a qual deve ser realizada com a rede que já está instalada e com os profissionais que já possuem formação para essas práticas ou que venham a formar-se. Com o propósito de estimular esse interesse, foi realizado em agosto um seminário sobre auriculoterapia. “Como precisa de um baixo investimento, tanto na formação quanto na aplicação em pacientes, seria uma boa prática para começar”, pondera Flávio.


Outras práticas são o Qi Gong (às quartas-feiras, 7h da manhã) e a unibiótica (demais dias úteis, às 7h). Esta última ainda não foi adicionada ao rol das PICs. Entretanto, segundo o médico, preenche todos os requisitos. Ela também não está diretamente relacionada à unidade de saúde propriamente, mas teve ajuda de Flávio para ser implementada.

Segundo a Secretaria de Saúde de Divinópolis, as PICs já realizadas em Divinópolis são Acupuntura, Auriculoterapia, Qi gong, Lian gong, Percussão para Vitalidade, Dança Circular, Biodança, Oficina de automassagem. Ao menos uma dessas práticas pode ser encontrada nas seguintes ESF: Belo Vale, Belvedere, Ermida I e II, Jusa Fonseca/Paraíso, Nossa Senhora das Graças, Planalto I e II, Primavera, Rancho Alegre, Sagrada Família, Santa Lúcia, Santos Dumont, São Paulo, São Roque, Tietê I e II, Morada Nova, Vale do Sol, Nilda Barros e Centro de Saúde São José.


Vale lembrar que os procedimentos que integram as PICs no SUS totalizam 29, e que nem todas as EFS de Divinópolis desenvolvem ao menos uma das práticas. Nesse sentido, a cidade tem muito a avançar. Segundo o doutor Flávio, a maior parte das unidades de atenção básica permanece no modelo “posto de saúde”, um local onde se prescreve medicação, solicita exame e faz encaminhamento. Está muito longe da verdadeira prática de saúde, que é a prevenção, educação e mudança no estilo de vida. “Aqui estamos caminhando um pouco nesse sentido”. E afirma que a mudança de cultura deve ocorrer não só por parte dos profissionais, mas também na própria comunidade. “A cultura ainda é de remédio, exame”.


Além de executar as diretrizes preconizadas pelo SUS, o médico se exercita com animação no encontro da Unibiótica. Sua proximidade e a integração com a comunidade são notórias. Ao despedir, aquele homem longilíneo de traços graves, evidencia sua satisfação pessoal pelo trabalho que desenvolve cotidianamente. E transmite a impressão de alguém que descobriu a que veio no mundo.

 
 
 

Comentários


bottom of page