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Da origem ao destino: ausência de linhas de ônibus em Divinópolis causa problemas à população

  • Foto do escritor: Intercomunicação
    Intercomunicação
  • 2 de out. de 2018
  • 4 min de leitura

Assédios, assaltos, atrasos e perdas de oportunidades são os principais problemas enfrentados devido à insuficiência de linhas do transporte público


Por Ayllana Ferreira e Camila Moraes


A ausência de linhas itinerárias do transporte público em Divinópolis ressalta a falta de compromisso com a empresa prestadora do serviço em relação as demandas da população. Por trás dos atrasos, dos grandes intervalos de tempo entre um ônibus e outro, das ausências e do descaso, há histórias. Histórias de pessoas que utilizam o sistema de transporte todos os dias e que, por uma série de motivos, necessitam dele para realizarem as atividades que o cotidiano as impõe. Para moradoras e moradores de certos bairros da cidade, utilizar o coletivo é um desafio, uma vez que ir para o trabalho, para universidade e ocupar os espaços de socialização é uma dificuldade constante.


Há bairro em que o deslocamento a determinadas áreas da cidade é impossibilitado devido à pouca quantidade de linhas, com ônibus que passam em grandes intervalos de tempo ou que não fazem o trajeto de um ponto ao outro. Consequentemente, ao se deslocar, torna-se necessário que a pessoa tenha que pegar mais de um autocarro, ou caminhe por grandes distâncias caso queira economizar e encontrar um ponto com uma linha direta, já que a tarifa do transporte público é alta e impossibilita outras alternativas. Paralelamente, em alguns bairros, o problema é a falta de itinerários, fazendo com que seja um tanto quanto inviável o acesso a regiões diferentes e determinadas localidades da cidade.



O perigo da caminhada


São cinco horas da manhã, você tem duas escolhas: pegar dois ônibus e deixar de tomar seu café da manhã ou caminhar até um ponto que precise pegar só um. O que você escolheria? A estudante universitária, Ana Flávia Dias (19), passa por essa situação todos os dias, mas não tem escolha.


“Eu preciso pegar dois ônibus para chegar no meu destino final, que é a universidade. Só que, como é muito caro, eu não pego. Tenho que acordar mais cedo e descer um morro de, aproximadamente, um quilômetro para pegar o ônibus em outro bairro e economizar o dinheiro de uma passagem”,conta a moradora do bairro São Luiz.


Diariamente, a estudante é exposta aos riscos de caminhar sozinha em um trajeto perigoso, visto que não existem linhas que atendam suas necessidades. A cada passo, o medo de ser assediada, dos assaltos e de outros tipos de violência a acompanham no caminho que percorre até seu destino. Não é sempre que ela consegue fugir ou evitar esse cenário.


“Em uma dessas caminhadas, eu estava com uma colega de faculdade e foi onde aconteceu. Um homem parou a moto, levantou a viseira do capacete e falou algo que acho que não vale a pena ser repetido novamente, mas era em relação aos meus seios. Eu não me sinto segura, em momento nenhum, em sair na rua, em ter que fazer o mesmo trajeto todos os dias, já que sei que pode acontecer a todo momento”, relata Ana Flávia.


A história da estudante é a história de outras mulheres, que, por motivos semelhantes, caminham por longos percursos. O baixo número e a pouca variedade de linhas facilitam acontecimentos parecidos. Se houvesse mais linhas e a caminhada não se fizesse necessária, talvez, ocorrências assim fossem menos constantes.



O descaso com as áreas descentralizadas


E se você tivesse somente três opções de horário para se locomover da sua casa para a região central da cidade? Sandro de Jesus Soares, morador da Comunidade de Piteiras, zona rural próxima à Divinópolis, vive esse desafio diariamente.


Com apenas três linhas de ônibus que cobrem sua região, Sandro precisa planejar com antecedência todos os movimentos que pretende fazer que envolvam a cidade, já que o intervalo de espera entre as linhas oferecidas se estende por horas e o último ônibus saí às 17h do ponto. “Isso impede que tenhamos compromissos que possam acabar mais tarde aí na cidade caso a gente não tenha outro modo de ir para casa”, relata.


Desde que a população da Comunidade esteja disposta a pagar mais, existe o transporte privado, conhecido como “ônibus de corrida”, como conta o morador. Porém, ainda há pouca variedade nos itinerários e os preços são superiores à tarifa comum.


Para mais, o morador denuncia a tentativa do Consórcio Transoeste em barrar a circulação desses “ônibus de corrida" no centro da cidade. Segundo Sandro, a intenção era fazer com que todas as pessoas que viessem de outras regiões descessem na rodoviária e, obrigatoriamente, tivessem que pegar outro ônibus para se locomover, aumentando o ganho da empresa e diminuindo o fluxo de ônibus nas ruas principais. Para ele, a falta do transporte privado, mesmo com maior tarifa, significaria menos opções para se deslocar.



Os ricos da ausência


E se no lugar de escolher os horários dos ônibus, você tivesse que escolher o horário da caminhada? A estudante, Vitoria Karollayne, moradora do bairro Marajó, caminha cerca de trinta minutos para chegar a universidade, isso porque, no seu bairro, não há linhas que atendam ao seu destino final.


No trajeto do bairro à faculdade, isolado, rodeado por matagais e com pouca iluminação, a universitária passa por perigos diários para estudar. Em um dessas caminhadas, enquanto fazia sua rota padrão com uma colega de faculdade, as garotas foram abordadas por um homem no carro, que as assediou com gestos obscenos.


Além dessa ocorrência, Vitória já vivenciou experiências parecidas. Ao se deslocar para compromissos em outros locais da cidade, a estudante conta que já passou por situações semelhantes, afinal, a falta de segurança pública associada a ausência de linhas em seu bairro estimulam esse tipo de acontecimento. Às vezes eu até evito de sair para shopping, ou até mesmo ir no Centro comer uma coisa diferente, porque eu tenho muito medo. Muito medo mesmo”, declarou.



Posicionamento da empresa


Ao ser questionada sobre a situação, o Consórcio Transoeste afirmou estar providenciando melhorias no transporte público. Segundo Juliana Almeida, auxiliar administrativa da empresa, devido ao crescimento da cidade e a falta de pavimento em certos bairros, existem muitas zonas nas quais ainda não há linhas. “A mobilidade urbana começa pelo asfaltamento das vias”,diz a funcionária.


Juliana relata que a empresa possui seis canais de comunicação para receber as solicitações dos usuários, “através deles ouvimos e estudamos todos os requerimentos, cem por cento respondidos”.



Posicionamento da Secretaria de Trânsito e Transporte


Ao ser procurada, a Secretária alegou a indisponibilidade do responsável para conceder entrevistas.

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