top of page

Texto

(s)

Uma Xícara de Demissões

  • Foto do escritor: Intercomunicação
    Intercomunicação
  • 19 de set. de 2018
  • 6 min de leitura

Grupo Abril demite mais de 800 funcionários e Sindicato luta por direitos dos demitidos


Por: Lorena Gonçalves/Letícia Rodrigues


Imagem: Desconhecido

O despertador de Juliana toca, mais uma segunda feira. Sem tempo para um café, a matéria deve estar pronta para circular. Redação cheia, sons de pessoas falando, outras escrevendo. Um caos organizado. Diversos “bom dia” circulando, todos rápidos, alguns um pouco diferentes, ela apenas observa, tudo parecia familiar, mas diferente. Uma movimentação estranha começa. Quem não estava triste ou espantado avisa: “Tem nota oficial lançada”. Juliana, como muitos, acessa o site da empresa, estava bem a sua frente: Abril anuncia reformulação. Não era uma segunda feira comum.


Era 06 de agosto de 2018. Em nota oficial, o Grupo Abril (responsável por títulos como Veja, Exame, Claudia e Superinteressante) comunicou que “como parte de seu processo de reestruturação, está reformulando o portfólio de marcas da editora com o objetivo de garantir sua saúde operacional”. O comunicado correu pelos jornais de todo o Brasil. De acordo com uma matéria pela Folha, publicada no mesmo dia, títulos como Elle, Cosmopolitan e Mundo estranho foram encerrados e até a quarta feira (8), 570 profissionais iriam ser dispensados.


À tarde, em que todos já estavam cientes, o Sindicado dos Jornalistas de São Paulo (SJSP), entrou com pedido de antecipação de tutela para anulação das demissões, ou seja, que houvesse uma reintegração dos profissionais já que há uma ação civil pública do Ministério Público do Trabalho (MPT) contra a editora. O sindicato, em nota publicada, informou ter procurado representantes da Abril na quinta feira (2). A empresa negou planos de dispensa.

Se não havia planos, havia suspeita. O Grupo Abril contratou em julho um novo presidente executivo, Marcos Haaland, diretor da Alvarez & Marsal, uma consultoria especializada em reestruturação de empresas. Haaland entrou para a gestão da empresa no lugar de Giancarlo Civita, membro da família Civita que controla a editora. O Grupo Abril estava, naquele momento e agora, em uma crise financeira que caiu diretamente sobre as cabeças de 100 jornalistas, dentre eles, Juliana.


O tempo passa e a cada dia novas demissões, todos os dias, mas sem notas oficiais por parte da Editora Abril. Até que essa situação muda, para pior, na quarta feira (15). Editora Abril entra em recuperação judicial, uma medida legal que serve para que a empresa possa buscar equilíbrio em suas contas e evitar a falência. A notícia veio por meio de uma das suas publicações, a revista Exame. Em uma URL estranha que dizia “não-publicar-1” e que logo foi substituída pelo título da matéria. Nela, o próprio Marcos Haaland explica a situação da empresa. Veja:

Mais tarde, essa URL foi modificada para:

De acordo com a entrevista publicada com o executivo, “a receita total da Abril caiu de 1,4 bilhão de reais há quatro anos para 1 bilhão no ano passado, uma queda causada principalmente pela redução da publicidade”. O valor total das dívidas, que foram submetidas à recuperação judicial, é de 1,6 bilhão de reais. Restam algumas dívidas que não foram submetidas. O pedido recaiu agora sobre quatro áreas de negócio do Grupo Abril:


Abril Comunicações – Mantém as atuais 16 revistas e sites.

Gráfica – A maior da América Latina, imprime publicações do grupo e de terceiros

Dinap – Distribuidora de publicações do grupo e de outras empresas, atendem a mais de 30 editoras

Total Express – Distribuidora de encomendas que entre 750 milhões de itens por ano.


Um caso mal explicado. Apesar de graves, não são as demissões do grupo Abril que mais chocam, mas o que parece ser um ato deliberado para driblar a lei e prejudicar os demitidos


Foram demitidas cerca de 800 pessoas, dentre elas, Juliana e outros 150 jornalistas até aquele momento. Diante do anúncio do pedido de recuperação judicial, o Sindicato encaminhou uma solicitação para uma reunião de emergência com a direção da Abril. De acordo com publicação do SJSP, “a empresa afirmou que vai pagar as verbas rescisórias em dez vezes, o que fere a legislação trabalhista”.


A solicitação não foi respondida e dois dias depois, na sexta feira (17), foi realizada uma assembleia com os jornalistas demitidos pela Editora Abril e a direção do SJSP. Foram aprovadas mobilizações contra a demissão em massa em conjunto com os gráficos e técnicos administrativos que também foram demitidos. Formou-se um comitê que emitiu um comunicado. No documento, os funcionários demitidos contam que 11 títulos foram encerrados e que “a empresa desligou de forma injusta, sem negociação com as entidades de representação trabalhista e sem prestar esclarecimentos oficiais”.


Ainda de acordo com o comunicado, dentro do pedido de recuperação judicial estão todas as verbas rescisórias (aquelas que ficam em dívidas em caso de dispensa sem justa causa) e a multa de 40% sobre o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Para Juliana aquilo mais lhe parecia algo planejado, como se a ação de demissão em massa e o pedido de recuperação judicial tiveram o objetivo de não pagar os empregados. Além disso, não houve liberação da chave necessária para o saque do FGTS e as guias do seguro-desemprego, deixando Juliana e outros jornalistas, gráficos e administrativos sem nenhuma cobertura financeira.


Na terça feira (21), o Sindicato e o Ministério Público do Trabalho entraram com uma ação civil pública questionando a demissão em massa. Três dias depois, na sexta feira (24), o Sindicato lança outra publicação afirmando que está marcada para a próxima sexta-feira (31) uma reunião entre o SJSP e a Editora Abril para discutir a situação dos funcionários demitidos.


A consequência das demissões e o que fica para aqueles que escreviam e liam as revistas


A esperança para todos aqueles que estavam presentes naquela segunda feira onde quando tudo começou é que a editora forneça um parecer favorável aos jornalistas. Dizem que a esperança nunca morre, mas a espera por ela chega a ser insuportável.

Para os jornalistas, atingidos diretamente ou não, o ocorrido é lamentável. “É triste, lamentável. Um baque na pluralidade, da divulgação de informação de qualidade em tempo de propagação de fake news, uma derrota do jornalismo para o conteúdo muitas vezes irresponsável. O fim das revistas é ruim para todo mundo, incluindo quem não as lia”, conta Felipe van Deursen, autor do livro 3 Mil Anos de Guerra e do blog Contra Outra, editor da Mundo Estranho e colunista da Cosmopolitan.


Para o editor, que continua na Editora, o mercado jornalístico está enfrentando uma revolução, não acompanhada pelos patrões, que, ao se fixarem em práticas do velho padrão de mercado, acabam por jogar seus negócios na bancarrota. “Para nós, trabalhadores, o desafio está mais em encontrar trabalho. Mas ele existe. Só não está mais nas redações tradicionais. É preciso mudar o radar. Acredito que hoje a situação esteja mais difícil para as revistas segmentadas do que para os jornais e revistas de informação. Esses últimos podem agradecer as fake news. É mais palpável a vantagem para você, consumidor, em assinar um jornal, pagar pelo paywall de um portal. Afinal, está se blindando contra as correntes de WhatsApp. Para as segmentadas, como a ME [Mundo Estranho], o buraco é mais embaixo”, comenta.


Ao procurar pela repercussão nas redes sociais, a tristeza pairava em cada post. Não eram apenas jornalistas que lamentavam a situação, mas os leitores das publicações também. Lamentavam para além do pare! colocado nas publicações, mas também por um jornalismo que morria. Em relação a própria revista Mundo Estranho, uma das que foram excluídas do portfólio do Grupo Abril, quem colecionava, hoje só guarda lembranças.


É o caso do Matheus Augusto, de Ribeirão Pires/SP. Para ele, “a revista era um meio de obter conhecimento sobre diversos assuntos, muitas das minhas redações ou provas de escola eu usei muito do que obtive nas leituras, considero uma grande perda educacional”.

Ainda de acordo com Matheus, a revista transmitia conhecimento de maneira descontraída e ajudava a conscientizar o público sobre movimentos sociais e meio ambiente. “Sem a Mundo Estranho, eu não teria conhecido a metade das coisas que gosto”, conta ele em um tweet.


Ao analisar todos os acontecimentos e lembrar de todos os dias em que esteve na empresa. As madrugadas de fechamento. As horas de pesquisa para garantir um conteúdo de qualidade para cada leitor. Ver títulos que promoveram educação, ciência, saúde entretenimento morrerem. Para além disso, pensar em cada demissão; em cada profissional que agora busca por uma nova oportunidade sem ao menos ter a garantia de seus direitos. Nas palavras de Patrícia Zaidan, ex-redatora chefe da revista Claudia e integrante do Comitê formado pelo SJSP, “é profundamente desgastante para nós termos que brigar com a editora Abril para receber aquilo que nos é de direito. Diria que é um golpe, um calote”.


O despertador de Juliana toca, uma personagem fictícia para uma história lamentavelmente factual. Sem tempo para um café, há mais de 800 Julianas em situações difíceis de se engolir.

Comentários


bottom of page