O Amor Ideal e o Seu Uso na Venda de Produtos Culturais
- Intercomunicação

- 1 de jul. de 2018
- 4 min de leitura
Por: Lorena Gonçalves

Escritores, poetas, pensadores, produtores. Todos os humanos já se debruçaram sobre o amor e contar suas histórias amorosas. As paixões avassaladoras percorrem livros, filmes, músicas e o pensamento de todos aqueles que buscam encontrar o amor de suas vidas. Todas essas formas de comunicação e transmissão de valores, contribuíram para que um imaginário tenha sido criado a respeito do amor ideal.
Trataremos aqui o amor ideal como aquele em que os casais vivem em um romance onde ambos são completamente apaixonados pelo outro, o famoso “cego de amor”. Partindo do princípio de que esse pensamento é uma construção que faz da completude amorosa um valor alimentado pela Indústria Cultural fazendo com que encontro amoroso seja um bem de primeira ordem, como em contos de fadas ou romances literários.
Estamos obcecados pelo amor. Procuramos encontrar o amor que lemos, que vimos em salas de cinemas e escutamos nas músicas, isso porque o mercado da Indústria Cultural utilizando esse sentimento nobre como forma de venda vem crescendo cada vez mais. De acordo com uma pesquisa realizada pelo portal Curiosamente, do jornal Diário de Pernambuco, 4 dos 10 livros mais vendidos nos últimos anos são livros de romance. Titanic[1] ainda lidera a segunda maior bilheteria de todos os tempos com U$ 2,187 bilhões, de acordo com O Globo.
Esses números possuem uma justificativa. De acordo com Hollanda (2002), todo produto que vai para o mercado passa por três etapas de decisão: o que, como e para quem produzir. Boa parte dessas perguntas são respondidas pela procura por bens e serviço. Essa procura vem da necessidade da população por aquele produto o que gera a venda e, posteriormente, o equilíbrio da economia pautado nessa contínua oferta e procura.
O autor ainda divide essas decisões em bases individuais e coletivas em um critério de maximização ou otimização de seus objetivos. A primeira é o consumidor que vai “distribuir seus gastos da forma mais racional possível, de modo a que, no limite dos recursos de que dispõe, possa alcançar sua máxima satisfação; a segunda é o capitalista que “vai tentar obter a máxima rentabilidade de suas aplicações” e a terceira sendo o empresário que “buscará maximizar os lucros da sua empresa, sabendo, porém, que não pode esquecer os riscos do negócio, a necessidade de crescimento e modernização”.
Partindo do pensamento de Hollanda (2002) para o nosso tema, ao produzir um bem cultural, é preciso que o produto responda a sua demanda, ou seja, a uma necessidade. Assim, inferimos que se há a produção de livros, filmes e músicas sobre o amor e que o lucro desses são exorbitantes, significa que a necessidade por materiais desse tipo ainda é grande nos dias atuais.
Mesmo assim, não é um saldo comemorativo. O amor está sendo usado como uma forma de venda. Segundo dados da Crowley Broadcast Analysis, empresa que monitora as rádios brasileiras, das cem músicas mais tocadas em rádios no ano de 2017, 87 delas eram músicas sertanejas e todas elas sobre amor. Duplas e cantores sertanejos poderiam escrever milhares de canções sobre outros temas, mas escolhem o amor porque vende e porque há uma procura por essas músicas.
O problema em questão poderia ser sobre um sentimento ser utilizado como ferramenta para o lucro, entretanto essa é somente a ponta do iceberg. A construção do imaginário social sobre uma história amorosa ideal fez com que todos acreditássemos em uma paixão constante. Entretanto, na realidade, as relações sociais são mutáveis e há um período pós-paixão em que não estamos acostumados.
Não há livros, filmes ou músicas a respeito do pós-paixão e todos estão sendo condicionados a um tipo de pensamento que o fim da paixão também é o fim do amor. O que resulta em separações e divórcios que demarcam esse fim, quando na verdade não sabemos nem mesmo quando é o começo do amor. Só reconhecemos o começo e o fim da paixão.
É preciso que o amor comece a ser reconhecido em todos os momentos e perceber que ele está presente mesmo no período pós-paixão. Pessoas se encontram todos os dias e esses encontros vão além de uma aventura romântica. Em um mundo tão cruel e incerto como o nosso precisamos amar e aprender a amar, não apenas como uma forma de vender nossos produtos. Amar é um ato revolucionário e deve ser respeitado como tal.
Referências bibliográficas
CURIOSAMENTE. Pesquisa mostra livros mais vendidos no Brasil em 2017 e nos últimos 10 anos. Diário de Pernambuco. 2017. Disponível em: http://curiosamente.diariodepernambuco.com.br/project/pesquisa-mostra-livros-mais-vendidos-no-brasil-em-2017-e-nos-ultimos-10-anos/. Acesso em 21 de abril de 2018.
HOLLANDA, N. Introdução à Economia. 8ª ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2002.
O GLOBO. Cinema: As maiores bilheterias de todos os tempos. 2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/cinema-as-maiores-bilheterias-de-todos-os-tempos-21396794. Acesso em 21 de abril de 2018.
TOLEDO, M. T. Uma Discussão Sobre o Ideal de Amor Romântico na Contemporaneidade: do Romantismo aos padrões da Cultura de Massa. Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano. Artigos Seção Livre, n. 2, p. 201-218. Junho, 2013. Disponível em: http://www.ppgmidiaecotidiano.uff.br/ojs/index.php/Midecot/article/view/50. Acesso em 21 de abril de 2018.
UOL Entretenimento. A rota do sertanejo em 2018. 2018. Disponível em: https://www.uol/entretenimento/especiais/musica-sertaneja-em-2018.htm#as-mais-tocadas. Acesso em: 21 de abril de 2018.




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