A Importância da Comunicação para a Teoria da Obsolescência
- Intercomunicação

- 1 de jul. de 2018
- 4 min de leitura
Por: Isabelle Marie

Depois da crise econômica de 1929, o ex-presidente da General Motors, Alfred Pritchard Sloan, criou uma estratégia de mercado que incentivava as empresas a desenvolverem automóveis com o tempo de vida mais curto, garantindo então o ciclo de consumo de novos carros. Assim, foi possível alavancar novamente a economia que estava em défict.
A ideia era, basicamente, forçar o cliente a renovar seu produto em alguns anos sem que ele quisesse mas sim pela necessidade da troca, já que havia um prazo de validade. O que acontece na prática é que certas mercadorias tem opção de reposição de peças, dessa forma, não tem como impor a troca e é aí que entra o papel importante dos veículos de comunicação para a manipulação dos consumidores.
Tanto as indústrias quanto as grandes imprensas lucram com a “Teoria da Obsolescência” pois o fato é que, à medida que os produtos deixam de funcionar ou ficam ultrapassados há sempre um novo modelo sendo produzido, divulgado e vendido nas redes. Dessa forma, o cliente é incentivado, mesmo que subconscientemente, pelas propagandas e promoções a tomar como verdade absoluta a necessidade de adquirir aquela nova tecnologia, seja ela eletrônica ou não.
Em seu livro “Padrões de Manipulação na Grande Imprensa”, Perseu Abramo discorre:
Depois de distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente, a realidade é ainda assim dividida pela imprensa em realidade do campo do Bem e realidade do campo do Mal, e o leitor/espectador é induzido a acreditar não só que seja assim, mas que assim será eternamente, sem possibilidade de mudança […] A realidade real foi substituída por outra realidade, artificial e irreal, anti-real, e é nesta que o cidadão tem que se mover e agir. De preferência, não agir! (ABRAMO, p. 50).
Para quem está comprando, a realidade naquele momento é de que ele precisa daquele produto da marca X e modelo Y porque acredita que satisfará todos seus anseios, sem pensar na possibilidade de continuar com seu antigo aparelho, mesmo que esteja funcionando normalmente, justamente por ser induzido pelas redes sociais a considerá-lo como ultrapassado. Além disso, os meios de comunicação impõem quais tecnologias são as melhores, mais rápidas, mais eficientes, mais bonitas e articulam inúmeras formas de facilitar a compra, como os cartões de crédito que hoje parcelam em quantas vezes quiser, boletos bancários, depósitos, cheques, crediários, promissórias e etc, tudo para que o consumidor leve a compra até o final e o capital continue girando.
Como afirma Débora Izídio em seu artigo “A Obsolescência Programada e os Reflexos no Consumos e Pós-consumo no Meio Ambiente”:
Não se pode esquecer que o consumo, além da satisfação das necessidades físicas e sociais, envolve aspectos subjetivos, ligados aos desejos pessoais. Aliás, esse é o apelo mais utilizado pelo marketing para fins de oferecimento de produtos e serviços para o consumo. Por exemplo, a escolha de um carro não se refere apenas à necessidade de um meio de transporte, mas ao gosto pessoal, aos interesses envolvidos.
A questão é que se tornou um ciclo vicioso de não somente atender ao público mas também incentivá-lo a comprar mais do que precisa, sendo importante ressaltar como a opinião pública é essencial para que as indústrias meçam e compreendam as necessidades dos consumidores, sendo elas de reposição ou troca. Abramo, no capítulo “Os Padrões de Manipulação” afirma existir um padrão global de manipulação como um jogo de cenas, dividido em três momentos: O primeiro seria o da Exposição do Fato, que consiste em apresentar os problemas sob ângulos emocionais; O segundo, da Sociedade Fala, em que as corporações utilizam da opinião pública para comover e chamar atenção de outros futuros compradores; O terceiro, da Autoridade Resolve, é o momento que a autoridade maior apresenta as soluções e providências que tomará a respeito dos problemas apresentados.
Deixam de ser instituições da sociedade civil para se tornarem instituições da sociedade política. Procuram representar – mesmo sem mandato real ou delegação explícita e consciente – valores e interesses de segmentos da sociedade. E tentam fazer a intermediação entre a sociedade civil e o Estado, o poder. (ABRAMO, P. 64)
As instituições, como cita Perseu, se referem as empresas produtoras em conjunto com as corporações midiáticas. Uma delas produz e a outra divulga e vincula o produto nos meios sociais, assim quando a sociedade se manifesta, emitindo uma opinião sobre o mesmo, seja criticando ou apoiando, a mídia tem o importante papel de promover uma discussão política e levar até a empresa responsável para que então ela responda e “resolva”. Dessa maneira, os consumidores não percebem que tudo já foi planejado, desde a criação dos bens não duráveis para que sejam obrigados a trocarem em alguns anos, até mesmo ao “atendimento” dos clientes.
Fica evidente, portanto, que a Teoria da Obsolescência está longe de acabar devido ao consumo desenfreado proporcionado pelo capitalismo, ligado à ideia de que comprar não é mais por necessidade e sim, por prazer e também, que, quanto maior a demanda por um produto maior é o poder que o as instituições deliberam sobre os padrões consumistas e consequentemente, sobre as opiniões dos indivíduos.
Referências bibliográficas
ABRAMO, Perseu. Padrões de Manipulação na Grande Imprensa. Fundação Perseu Abramo. 2006. Disponível em: http://209.177.156.169/libreria_cm/archivos/pdf_1475.pdf.
Acesso em: 02 de abril de 2018.
IZÍDIO, Débora. A Obsolescência Programada e os Reflexos no Consumos e Pós-consumo no Meio Ambiente. Disponível em: https://juridicocerto.com/p/deboraizidioadv/artigos/a-obsolescencia-programada-e-os-reflexos-no-consumo-e-pos-consumo-no-meio-ambiente-1932. Acesso em: 02 de abril de 2018.




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