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Dos Campos Para a Vida

  • Foto do escritor: Intercomunicação
    Intercomunicação
  • 1 de jul. de 2018
  • 5 min de leitura

Por: Ayllana Ferreira


Imagem: Ayllana Ferreira

“De um lado, o amor dos estudantes pelo esporte, do outro, a falta de investimento que impede muitas vezes que esse amor e sonho se torne realidade”


“É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito de cada um (...)” – Constituição Federal, Artigo 217.

O Brasil é conhecido no exterior como o país do samba, do carnaval e do futebol. Embora receba tais títulos, nem todos condizem com a realidade. A seleção de futebol tem sim muitas premiações e reconhecimento, mas quando o assunto é esportes como um todo, a situação já deixa de ser “olha a felicidade que o menino Neymar traz”, para se tornar um contexto marcado pela falta de investimento e desinteresse por baixo dos holofotes. No dia 04 de fevereiro, ocorreram as seleções para o time de futsal feminino da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Por mais que houvesse um clima de união e empoderamento de mulheres, a falta de estrutura se mostrava como um desafio tão grande quanto o próprio preconceito que as meninas sofrem todos os dias.


“Os treinos são realizados na quadra da própria faculdade na parte da tarde. Tanto o time feminino quantos os outros times enfrentam condições não muito apropriadas, como o sol forte ou a falta de treino em dias de chuva – o local onde acontece não é coberto. O piso da quadra é desnivelado, o que faz com que tropecemos ou escorreguemos no decorrer do jogo. A estrutura não é apropriada tanto para a Atlética Crocks quanto para a faculdade como uma instituição, já que ela oferece cursos de Educação Física.”, conta Rhena Alexa Moreira, 21 anos, estudante de Engenharia da Computação da instituição, membro da Crocks – Atlética composta pelas Engenharias da Unidade – e parte do time da seleção.


“Em questão de investimento, falta muito sim. Praticamente não existe. A UEMG tem uma grande variedade de cursos, inclusive, um curso de Educação Física. O estado da quadra que a gente tem para trabalhar é muito precário, tem dimensões não oficiais – é pequena -, não tem arquibancadas, é do bloco de sala de aula – o que atrapalha porquê não pode ter atividade enquanto está em horário de aula -, e tudo isso junto afeta no rendimento da nossa equipe. Principalmente na questão dos treinos e da motivação. "Direto a gente recebe reclamação da galera com relação ao tamanho da quadra “ai, é pequeno demais”, “tá faltando horário”, “não tem bola” ou “não tem rede”. Nunca tem nada, entende?” completa Jonas Rezende, 20 anos, estudante de Engenharia da Produção e Vice-Presidente da Atlética Crocks.


Na teoria, conforme o Ministério da Educação, só em 2015, foram repassados 70,7 bilhões de reais em investimentos para construção ou reforma dos centros esportivos, incluindo a compra de equipamentos, sendo 160 milhões dessa verba destinada exclusivamente para as universidades federais e estaduais do país. Contudo, se essa verba chegou, não foi utilizada da maneira correta. Na Estadual de Minas localizada em Divinópolis, a situação está precária. Não há apoio, equipamentos, investimento ou infraestrutura.


“Há um baixo investimento sim, e é uma demanda crescente dentro da própria universidade quando o assunto é infraestrutura, material disponível e até mesmo qualidade. Tudo isso interfere na minha vida acadêmica, porquê sou impossibilitado de fazer várias coisas, conviver com outros cursos e até mesmo com o meu próprio. A gente fica um pouco defasado sim em vivencias dentro da prática esportiva na faculdade.” Pontua Luiz Henrique Ferreira Silva, 21 anos, graduando em Educação Física da instituição.


Imagem: Ayllana Ferreira

Futsal Feminino: luta, união, empoderamento e denúncia


Nas Universidades, as Atléticas surgem como uma opção de conciliar amor, com divertimento e integração. O dia-a-dia dos universitários é muito corrido. É difícil lidar com todas as responsabilidades que surgem na nova fase, e ainda ter tempo para praticar algum esporte e ter uma vida-social.


O esporte é essencial para a saúde, é o que mais se enalta. Mas o que geralmente é esquecido é a sua importância para a formação social e moral dos jovens universitários. Até mesmo nos esportes individuais, é necessário trabalhar em equipe e compreender as limitações do próximo. É essencial a disciplina, a união e o respeito. Além de que participar de uma atlética – ou até mesmo praticar qualquer coisa - auxilia na formação da identidade do estudante, além de claro, na integração.


“Desde criança, prático esporte. Eu vejo que ele tem me ajudado no desenvolvimento pessoal e coletivo. Eu acho que a gente aprende muito, questão de humanidade, união,

saber lidar com a divisão e com as outras pessoas. Eu mudei bastante desde que comecei a praticar esportes.


Para os universitários, eu vejo que ainda há muitos calouros com dificuldade de se integrar na própria universidade, de conhecer pessoas. Eu por exemplo, quando mudei para cá, vim de outra cidade, me senti muito sozinha. Quando entrei na faculdade, conheci várias pessoas, e hoje já me sinto mais parte de tudo.” Conta Rhena.


Com relação a seleção de futsal feminino, é uma chance para as meninas de terem uma voz, de se empoderar. Por mais que a Marta, jogadora da seleção de Futsal Feminino, tenha trazido à tona nas Olimpíadas que mulheres podem sim jogar, ser tão boas quanto homens ou até mesmo melhores, a realidade das atletas brasileiras ainda é marcada pelo preconceito.


“A gente tem muito apoio no futsal feminino por ser um time muito bom, sabe? E as meninas mesmo ajudam muito, porque quando tem seletiva, jogos e coisas assim, elas ajudam a divulgar e fazem tudo. Já no masculino, quando tem jogo, a galera já fica mais relaxada. Porque acaba que não precisa disso tudo, não precisa de tanta propaganda, já se vende sozinho.” afirma Luciana Rezende, estudante de Engenharia de Produção da universidade e Presidente da Crocks.


Imagem: Ayllana Ferreira

As grandes emissoras têm horário marcado nas quartas e domingos para exibição do Futsal masculino, enquanto o feminino recebe uma participação especial vez ou outra em qualquer horário – tanto horário-nobre ou não. São poucos patrocinadores e, com relação a investimentos do Governo, se no masculino já é ruim, no feminino consegue ser ainda pior.


“Agora, com mulher e futsal, a gente pode ver pelo próprio interesse que gera nas pessoas, sabe? “Ah, é final do futsal masculino”, muita gente vai ver. “Ah, é final do futsal feminino”, vai a metade da metade, e olhe lá. E ainda dos que vão, tem sempre alguém que fica com a piadinha ridícula “ai, olha o machinho”, “tudo sapatão”, “maria-macho” e isso ou aquilo. O bom que acho que elas não estão nem aí para esses comentários, e tão aí, jogando. Inclusive, já fizeram até mais bonito que o futsal masculino. Então, contra fatos não há argumentos, não é mesmo?!” desabafa a presidente da Atlética.


Junta o preconceito, com a falta de investimento, a situação se torna ainda mais complicada. Mas isso não quer dizer nada. A garra nunca faltou nessas meninas, menos ainda a coragem de correr atrás daquilo que amam.


“O esporte sempre esteve presente para mim desde muito nova. Para mim é importantíssimo a gente cuidar tanto da saúde física quanto da saúde mental, então assim, é algo que vem desde a infância, que eu amo e sou apaixonada.” Diz Gabryella Rodrigues, 23 anos, estudante de Engenharia da Produção da Universidade e membro da seleção de Futsal Feminino da Crocks.


“Eu, por ocupar o cargo de presidente, tenho certeza que muita gente me desqualifica pelo simples fato de ser uma mulher. Não reconhecem o que eu faço. Vejo isso porquê o vice-presidente é um homem, enquanto a presidente é mulher. Tem vezes em que o Jonas vai falar, e as pessoas ao redor escutam muito mais ele do que quando sou eu, e isso que a gente tá falando exatamente a mesma coisa. Fica muito claro, muito nítido que a consideração e o respeito não são os mesmos. E eu acho que deveria existir, porque por mais que eles não aceitem muito bem, é fundamental a existência desse tipo de atitude para que a gente possa mudar a mente das pessoas, para que as próximas que chegarem, percebam que não é um cargo só masculino, de gênero, e sim de competência.” Finaliza Luciana.


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